Formiguinhas

As formigas estão em todo lugar. Já reparou? Elas passam por nós, subindo na parede do banheiro. Elas picam em pedacinhos e carregam aquele restinho de queijo que ficou esquecido na pia da cozinha. Passeiam pelo cantinho do asfalto da avenida mais movimentada do Centro da cidade, sempre carregando alguma coisinha. Aposto que tem formigas até nos iglus!

Um dia, elas dominarão o mundo, eu tenho certeza disso! E isso não é nenhum problema. Formigas são organizadas, limpinhas e trabalhadeiras. Acho que vai ser bem divertido ter uma líder mundial formiga!

Eu realmente gosto delas. Ando sempre olhando para o chão para não pisar em nenhuma. Tenho até uma lanterna do lado da cama, para o caso de eu precisar fazer xixi de madrugada. Acendo o tigre alaranjado, que tem um rugido incrível mesmo, e aponto para o chão, para não correr o risco de pisar nas minhas amiguinhas. Sim, elas são minhas amiguinhas.

Tudo começou quando eu tinha 5 anos! Minha mãe vivia me dizendo que se eu não escovasse os dentes antes de dormir ou se comesse doce na cama, ou um punhado de outras coisas que as mães não gostam que a gente faça, as formigas viriam à noite e me levariam embora enquanto eu dormia. Se minha mãe esperava com isso que eu fosse limpinho e me comportasse, ela se enganou redondamente. O que eu fiz foi me aproximar das formigas, tentando iniciar uma amizade. Assim, eu poderia comer na cama e dormir com a boca toda melada sem ser levado embora.

As que viviam no meu quarto eram daquelas maiores, meio avermelhadas, que lembram muito a cor dos meus cabelos. Eu ficava bem feliz em observá-las, carregando coisas estranhas, andando por todo lado, sozinhas ou em filas, trombando umas nas outras, em cumprimentos alegres. Isso era bem melhor do que videogame! Eu ficava animado, mas tranquilo.

Para reafirmar a intenção de amizade, eu comecei a levar pedacinhos de comidas bem gostosas para elas e colocava como oferenda nos buraquinhos onde eu sabia que elas moravam. Todo dia. Quando elas vinham buscar, eu falava para elas:

– Oi! Meu nome é Caio e eu vim em paz!

Vi isso em algum desenho, na TV. Ou seria num livro?! Não sei, não me lembro. Só sei que elas olhavam para mim, trombavam antenas entre si e pareciam concordar que eu era legal. E eu era mesmo!

Meu gato amarelo, o Tião, não era legal. Ele não percebia que as formigas eram amigas e, não, comida e tentava pegá-las para comer. Eu era obrigado a tentar resgatá-las e a ralhar com ele:

– Poxa, Tião! Para com isso! A gente tem que ser amigo delas! Vai que elas conquistam o mundo?! A gente tem que estar do lado certo, não é?! Do lado delas!

Mas ele não queria entender e isso me causava bastantes aborrecimentos. As formigas me olhavam com tristeza enquanto eram esmagadas pelo Tião. Isso era muito errado… Eu deveria defendê-las, como amigo e guardião que eu era. Então, à noite, que era quando elas saíam para patrulhar, comecei a deixar o Tião do lado de fora do meu quarto. Elas estariam protegidas, assim.

Havia uma formiga de 4 pernas, que eu chamava de Alice, que era a minha favorita. Ela andava engraçado, porque só tinha uma perninha na esquerda. Sei lá como ela perdeu as outras, mas, mesmo com dificuldade, ela não deixava de cumprir sua função de procurar comida todas as noites. E Alice era a mais corajosa, sendo a única que não tinha nenhum medo de subir na minha mão. Então, ela vinha e eu levava a mão perto do meu rosto, para ver a carinha dela enquanto eu falava sobre o meu dia. Ela era muito bonitinha e me olhava cheia de atenção!

Um dia, Alice deixou de aparecer e eu fiquei muito chateado. Não sei quanto tempo as formigas vivem, mas ela me parecia tão novinha. Daí, imaginei que se ela tivesse perdido a única perna esquerda, ela não poderia andar mais. Poxa, será que foi isso o que aconteceu? Se eu, pelo menos, soubesse falar formiguês… Fiquei procurando por ela, no meu quarto, durante dois dias até encontrar uma surpresa no meu armário!

Eu colecionava revistinhas de heróis e elas ficavam todas dentro de uma caixa de papelão, cheia de cravos-da-índia, para evitar traças, e bem protegida da umidade e da poeira. Enquanto eu procurava por Alice, reparei uma movimentação de formigas no meu armário e, lá dentro, vi que minha caixa de revistinhas estava com um entra e sai de formigas. Abri a tampa, com o maior cuidado, e elas estavam lá dentro. Uma porção delas! Muitas mesmo! Todas carregando cisquinhos e poeirinhas e outras coisinhas não identificáveis de lá para cá. Mal se via minhas revistas…

Na dúvida se eu chorava e jogava todas elas para fora da caixa, dando uma bronca daquelas, ou se deixava como estava, decidi que era melhor largar para lá… Revistas a gente pode comprar outras. Amizade não tem preço.

E, apesar desse episódio meio chato, tudo corria bem até que minha mãe, sempre ela, chegou com novidades ameaçadoras.

– Caio, meu amor, seu quarto está tomado pelas formigas! Temos que tomar uma providência!

– O que é providência? Que providência? – Perguntei, muito desconfiado.

– “Providência” é resolver o problema. E a solução é dedetizar!

– E o que é isso, mãe? – Eu já estava muito assustado!

– Matar todas elas com veneno.

– Mãe! – Gritei horrorizado. – Não! Elas são legais!

– Legais?! Elas estão em todo o seu guarda-roupas, meu bem. Elas são uma praga! Aposto que você anda comendo bolachas no seu quarto.

– É biscoito – falei, emburrado – e, não, não como lá… – menti.

Protestei e fiz birra e só consegui que minha me colocasse de castigo. Muito injusto. Ela falou com papai e ficou decidido que eles chamariam o moço do veneno no fim de semana. Poxa vida… Eu só tinha três dias para salvar minha amigas e não tinha menor ideia do que fazer.

Assim que fui cumprir meu castigo, que era ficar no meu quarto sem ligar a TV, fui logo para dentro do armário, abri a caixa e falei para elas:

– Fujam! Corram daqui! O moço vai vir matar vocês e não posso fazer nada! Eu tentei… – falei, enquanto as lágrimas escorriam do meu rosto e eu soluçava para valer. – Eu juro que eu tentei…

Elas me olharam e, tenho certeza, me entenderam.

Quando fui dormir, naquela noite, eu as vi correndo, em uma fila interminável, carregando milhares de ovinhos. Meu coração estava partido e torci para que elas conseguissem chegar em algum lugar, em segurança. Com tantos gatos, aranhas, tamanduás e pessoas no mundo, eu temi de verdade pelas minhas amigas…

É mesmo incrível como adultos sempre falam da sinceridade das crianças e de como somos especiais, mas se recusam a nos ouvir. Eu realmente amo a minha mãe e sei que ela me ama, mas se ela prestasse atenção em mim, tudo seria muito mais simples… Como nada é simples, no fim de semana, fui obrigado a ficar na casa do meu primo enquanto um moço que eu não conhecia envenenava meu quarto, tentando eliminar minhas melhores amigas.

Quando pude voltar, no domingo à noite, meu quarto ainda tinha um cheiro esquisito e estava vazio, vazio. Quieto, quieto. Nada se movia. Nenhuma vida ali, além de mim. Meu coração batia com tanta força, que as lágrimas inundaram meu rosto. Formiguinhas… Onde elas estariam?… Estariam bem?

Abri a caixa das revistinhas e só havia sujeira, lá. Mas era uma sujeira organizada. E as revistinhas, por baixo dela, pareciam estar bem. Eu é que não estava…

Fui dormir com o nariz cheio de meleca, de tanto chorar, e custei a pegar no sono. Eu pensava em Alice e em todas as outras que, de tantas que eram, eu não consegui pensar em nomes para elas. Mas eram todas minhas amigas, de coração. E, agora, eu viveria só e, pior, quando elas dominassem o mundo, eu seria visto como um traidor. Eu deixei que alguém viesse e as matasse. Eu, logo eu, o menino que deveria protegê-las de todo o mal.

Quando finalmente adormeci, sonhei com elas, com Alice e as outras. Elas me carregavam para o formigueiro, num grupo enorme, tal qual minha mãe vivia ameaçando que iria acontecer. Mas eu estava legal, não estava com medo, porque elas estavam sendo cuidadosas e não me deixavam trombar em nada.

Saímos do meu quarto pela janela, que eu deixei aberta para sair o resto do cheiro, e elas me desciam pela parede. Meu quarto ficava no segundo andar! Isso foi radical! Chegamos ao jardim e elas me levaram pela grama, verde e molhada. Eu sentia cócegas das folhinhas que roçavam em mim. Só fiquei com um pouco de medo quando começamos a afundar na terra. Elas me levavam para dentro de um buracão que parecia muito com a entrada gigante de um formigueiro.

Lá dentro era escuro e cheio de túneis. Era apertado para mim, mas elas conseguiam me transportar sem nenhum acidente. Alice, percebi finalmente, estava sobre meu peito e parecia comandar as outras. Era estranho, mas estar nesse sonho me deixava muito feliz.

De repente, paramos numa câmara um pouco maior, onde eu poderia, talvez, me levantar um pouco. Nela, estava mais claro, mas não entendi de onde vinha a luz. Rapidamente, elas foram saindo de debaixo de mim e Alice me falou que eu podia me sentar, se eu quisesse. Peraí!! Alice me falou?! E eu entendi?! Tudo bem… Era um sonho, não era?

Ela permaneceu no meu peito e a voz era baixinha, mas muito clara. Alice me agradecia pelo aviso de perigo e por todo o alimento e proteção que eu vinha dando nos últimos anos. Ela disse que todas as formigas apreciavam meus esforços e que gostavam muito de mim. Ela também falou que, quando a batalha final acontecesse, que eu estaria protegido, como amigo das formigas, um aliado. E, então, um punhado delas subiu até onde Alice estava trazendo uma folha que parecia muito com uma medalha. Dava para ler, através das mordidinhas que elas fizeram na folha, a palavra “general”. Eu realmente não sabia o que um general fazia, mas sabia que era um sujeito importante. Fiquei feliz.

Não me lembro de muito mais coisas sobre esse sonho. Só que acordei na minha cama, meio úmido, no dia seguinte. Havia uma folha redondinha no chão, mas estava esmagada e eu não conseguia ver se havia alguma coisa “escrita” nela.

– É… Foi só um sonho… – concluí.

Apesar de ser dia de aula, quando me levantei, fui correndo para o jardim para ver se achava o enorme buraco do sonho. Só achei um buraquinho de formiga, normal, mesmo, e vi que minhas amigas entravam e saíam por ele. O formigueiro estava em um bom lugar, protegido da chuva e das pessoas. Fiquei bem satisfeito em reencontrá-las bem. Felizmente, me lembrei de levar um biscoito no bolso do pijama e, esfarelando-o sobre o buraco, repeti, como sempre:

– Oi! Sou o Caio e eu vim em paz!

Enquanto elas recolhiam a oferenda, notei que elas me cumprimentavam com as cabecinhas.

Isso tudo aconteceu há dois anos. Minha amizade com as formigas, já tem quatro anos. Agora, que vou fazer 9 anos e já sou grande, eu deveria deixar essa história de formigas para lá, não é? Pelo menos, é o que os adultos e as outras crianças diriam se soubessem dessa amizade. Mas eu acredito que as coisas devam continuar como estão. E nem é porque eu tenha medo da tal batalha final. Eu não tenho, não. É só que… Elas são minhas amigas há muito tempo. Amigas de infância. E não é porque eu estou crescendo que isso diminui. Amizade boa a gente deve levar pela vida afora enquanto ela cresce junto com a gente.

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